quarta-feira, 30 de janeiro de 2019


As coisas e os corpos fora, do lugar(?) Uma leitura de Boi neon, Gabriel Mascaro, a partir da leitura do filme e de uma conferência on line do prof. Fabio Zoboli, da Universidade Federal de Sergipe, dentro da 1ª Jornada de Cinema promovida pelo Instituto Sophia Scientia





O destino a que será que se destina! 


Esse é o fio condutor da narrativa desta película ambientada no agreste brasileiro, no semiárido, mais precisamente no Estado de Pernambuco.
Trata da trajetória de 03 Personagens fora do lugar: uma criança que convive somente com a mãe, que é motorista de caminhão transportando bois; e Iremar, guardeiro dos bois, mas que se declara vaqueiro, e cujo sonho maior é ganhar a vida como estilista, portanto vidas em comum na itinerância.   Eis é o quadro que se descortina em meio ao escândalo do cotidiano da vaquejada, um “esporte” maldito que impera em quase todos os Estados do Nordeste brasileiro.
Um dos destaques do filme é a lentidão em alguns momentos cujas cenas se desenvolvem o que pode provocar o enfado no espectador mais desatento. Dentre elas destaco a da transa entre Iremar, o vaqueiro, e vendedora de cosméticos, pelo dia e vigilante de uma fábrica, à noite. 
Voltando ao trio central da narrativa: durante a trajetória daqueles três personagens destacados no início do texto, elejo  a criança, Kaká, que sem constrangimento vive o mundo adulto da vaquejada, realizando tarefas do cotidiano e participando inclusive dos conflitos deles, como no episódio em que Iremar reclama com ela para não ficar no caminhão no momento em que chega o substituto de Zé, outro guardeiro, que é convocado pelo fazendeiro a fazer parte de outro grupo também de vaquejada. Nesta sequência temos a revelação de um suposto relacionamento amoroso entre Iremar e Zé, "denunciado" pela criança. Nessa mesma sequência também constamos a força de controle que o fazendeiro tem sobre seus supostos funcionários.
Destaco ainda a pequena presença de uma trilha sonora, apesar de ouvirmos músicas em diversos momentos do filme (o que é compensada pela fotografia a qual nos redime da pequena presença da musicalidade). Parece contraditório, mas explico: quando me refiro à trilha sonora pequena, faço referência ao substantivo trilha,  isto é, um elemento da narrativa que sem diálogos nos conduz enredo a dentro. Já a música aqui e outra ali, nem sempre traduzem essa situação, de conduzir na trilha, que é parte do enredo, da narrativa.
Por fim, como se selasse o destino de nosso personagem principal, vemos o vaqueiro em sua lida diária, cuidando do gado na cena final.
É um filme que tem muito mais a ser dito e que ao ser visto precisa de uma  boa dose de cautela para não ser considerado enfadonho, cansativo. Sugiro que prestem atenção na letra da canção que acompanha os créditos da película, que não tem a linguagem rebuscada, mas tem a profundidade que uma obra de arte deve possuir.


domingo, 27 de janeiro de 2019

Aquarius, a vida em sua plenitude



Ao tomar conhecimento do filme Aquarius à época do seu lançamento, fiquei fascinado pelas poucas, mas elementares informações sobre a película, a saber: ser protagonizado por Sonia Braga, nossa musa televisiva e cinematográfica dos anos de 1970-80, ser ambientado em Recife, mais precisamente na praia de Boa Viagem, capital pernambucana, um dos pilares da nacionalidade e o próprio nome que deu o título ao filme, que remete à beleza de um aquário, mas sempre sendo aprisionamento. Todo esse conjunto me instigou a assisti-lo, o que consegui somente ontem, mas vi. Vamos a alguns detalhes que elenquei dentre as inúmeras possibilidades de destaque.
E o primeiro, dos muitos encontros que virão (quando o filme é bom revejo-o algumas vezes), me revelou agradabilíssimas surpresas: Hoje
Trago em meu corpo as marcas do meu tempo;
Trago no olhar imagens distorcidas; Homens de aço          esperam                da          ciência; Eu desespero e abraço a tua ausência
Que é o que me resta, vivo em minha sorte...  
Eis um pouco da minha deliciosa surpresa, ouvir,  Taiguara, ao tempo vejo as imagens em preto e branco, a posição das sombras dos coqueiros no calçadão da praia e as imagens aéreas.
Vivendo a personagem Clara, Sonia Braga, realiza com maestria a personagem central da trama: uma mulher livre, discreta, firme, destemida, corajosa, tendo superado um câncer de mama e viúva, mas nem por isso deixando de viver a vida intensamente.
Mas a trama não é uma biografia da personagem, apesar de todo o filme ter como epicentro a vida dela, é antes de tudo um conflito entre a força destruidora, avassaladora do capital, com seu personagem real, a especulação imobiliária, que a todo e qualquer custo quer destruir, derrubar, literalmente, o edifício onde a nossa personagem principal reside desde que nasceu e onde continuou vivendo após seu casamento. Em  meio a esse conflito que não é de classe, mas de interesses de pessoas, de gente do mesmo convício social, afinal Clara pertence à classe média alta, somos conduzidos pela memória afetiva e cultural daquele microcosmo social. É nesse instante, quando abordamos as relações sociais de Clara, que nos deparamos com um rico e competente elenco majoritariamente pernambucano nos mostrando um outro Brasil, sem ser piegas ou paroquiano.
Destaco as cenas em que nossa protagonista vê e sente a presença de outros personagens já falecidos e pertencentes à trama: 1. Supostamente o marido, após ela transar com um garoto de programa dentro da própria casa e, 2. a empregada que rouba as joias da casa. Nessa segunda situação lembremos da cena em que uma das amigas de Clara, após esta ter dito do roubo dos pertences, que as patroas sempre exploraram as empregadas, então o roubo praticado é uma forma de compensar esse desvio à legislação trabalhista.
Eis alguns detalhes desse memorável filme e advirto: quem quiser ver algo sobre a cidade do Recife não perca seu tempo, pois ali você verá uma narrativa sobre a gente que sente, que ama, que protege, que lembra e que respeita a vida em sua plenitude. E assim volto aos versos de Taiguara para concluir meu texto
Hoje/ Homens sem medo aportam no futuro/ Eu tenho medo, acordo e te procuro/ Meu quarto escuro é inerte como a morte

Mas Clara reage...............

Marcos José de Souza
Domingo, 27 de janeiro de 2018
Às 10:01h
Fátima, Bahia

O texto acima é uma tarefa da 
1ª Jornada Virtual do Instituto Sophia Scientia.

domingo, 6 de janeiro de 2019


O texto  abaixo faz parte de um artigo científico elaborado para fins avaliativos da disciplina ESTUDOS EM FILOSOFIA E LITERATURA, ministrado pelo Prof. Dr. Cícero Bezerra Cunha da Universidade Federal de Sergipe, junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras, onde sou aluno especial, isto é, aluno que teve o direito de cursar dois semestres, sem vínculo institucional com o Programa. O texto que ora torno público é uma análise de um episódio que ocorreu com Euclides da Cunha e à luz da Filosofia do Acontecimento é visto como um momento em que o espectador de um dado episódio tem uma reação em que percepções e afecções são produzidas em quem vê algo , transformando a visão, o ponto de vista, a partir desse encontro que dá-se o nome de ACONTECIMENTO, que não pode ser confundido com evento, o qual é premeditado, o que não se vincula ao acontecimento.
Aguardo comentários.
Boa leitura.
Um abraço.
Parte II – O acontecimento em O Sertões, de Euclides da Cunha: primeiros apontamentos

Ao ser designado como correspondente de guerra para cobrir o conflito entre patrícios que ocorria no semiárido baiano, Euclides da Cunha já havia se apropriado de informações sobre as motivações que levaram o povo do norte do Brasil a se rebelar contra a recém-instalada República, com a redação de dois artigos para jornal supracitado. Eis o germinal do livro monumento, nas palavras de Joaquim Nabuco, que marcaria para sempre a Literatura brasileira, lançada em 1902, cinco após o fim do combate em terras baianas.
Como repórter do jornal A Província de São Paulo, o Engenheiro e Militar, Euclides da Cunha desloca-se para o palco da guerra e demonstra sensibilidade aguçada para o conhecimento, para o saber e para tal faz pesquisas em Arquivos Públicos, em Bibliotecas, realiza entrevistas com soldados que vão e voltam da guerra e com civis, também sujeitos do combate. Durante sua estada no palco da guerra, Euclides permanece mais tempo no quartel general do Exército, no município vizinho de Monte Santo, distante 6 léguas, registrando em seus blocos de notas, cujo teor é enviado a São Paulo por uma estação telegráfica instalada somente por causa do conflito bélico. Vai aos arredores de Belo Monte, esse era o nome oficial da vila recém fundada por Antonio Conselheiro, líder do lugar. Mas o nome que fica para a posteridade é Canudos em face de que no local havia uma sede de fazenda, mas abandonada, a qual recebia esse nome.
Perspicaz, Euclides guarda para si as anotações, pois fica sabendo que as notícias por ele enviadas não são publicadas na íntegra, causando deturpações na veracidade dos fatos e dos relatos. São essas anotações, com futuras pesquisas, que vão formar o livro Os Sertões, considerado obra-prima da Literatura Brasileira e Universal, sendo objeto de estudo em diversos países europeus. De imediato, causa impacto pelo léxico utilizado, pela sintaxe e estilo atribuídos, uma vez que ele não faz um relato “cru” de um conflito bélico e seus tradicionais resultados: mortes, tiroteio, combates diretos, emboscadas e etc. Entretanto faz um estudo detalhado do lugar, do homem que habita aquele lugar e enfim o próprio conflito. Chamando a atenção para o uso rico de metáforas, antíteses, comparações e análises tanto do lugar, quanto do homem e do próprio conflito. Daí ser considerado um livro que passeia pelo ensaio cientifico geológico, botânico, antropológico, político e sociológico, mas não “deixa” a literatura devido ao modo como as palavras, a linguagem, a sua materialidade é tratada, lapidada, transformada. É também herdeiro do Positivismo, ciência dominante nos meios acadêmicos da época. É um livro que emociona sob diversos aspectos.
A densidade do livro, aliada ao quantitativo de informações ali contidas, exige de quem se propõe a estudá-lo a ter que sacrificar-se para a escolha desse ou daquele detalhe, por  isso elegemos um subtema, “morte” para entendermos o acontecimento em sua obra, destacando somente aquele em que o escritor se depara com um soldado morto. Esse episódio é descrito na primeira parte do livro denominada O Homem, porém o autor não deixa de nos apresentar ao conflito desde as primeiras páginas, pois esse é o “assunto” principal do seu livro.
Uma das características mais marcantes de os Sertões diz respeito ao modo de deslocamento no espaço do próprio autor/ protagonista do seu ensaio “antropoético” é a condição de andante, seja a cavalo seja a pé, predominando esse último modo.
            Em meio às variáveis narrativas – espaço geográfico, pessoas (não são personagens os sujeitos do seu texto, mas gente com vida real, não ficcional), os episódios – destacamos uma das mais marcantes e predominantes em um conflito bélico: a morte. Euclides nos apresenta esse momento da vida de diversos modos e ocorrências seja individual ou coletivamente, entre e interfamiliar, civis e militares. Por isso elegemos um desses momentos em que cansado do canhoneiro, o próprio autor revela um enfrentamento de si com o outro num misto de desvelamento, de mudança aparente do ponto de vista político (o autor/narrador tinha uma opinião contrária ao conselheiro e sua gente antes de chegar ao palco de guerra, ainda em São Paulo, quando escreveu os artigos para o jornal que o contratara como repórter dessa mesma guerra, como afirmamos acima). No seu estilo o autor sempre tem à mão para criar suas frases, seus parágrafos, os elementos naturais, transformando-os em poesia: o sol que sempre brilha e esquenta, o ar seco na maior parte do dia; e a flora ressequida, agressiva, mas colorida e aromática; os pássaros, os bichos rasteiros. É nesse cenário natural e não–fictício que se dá aquele momento em que perceptos e afetos incidem sobre os escritos e personagens reais: a visão de um soldado morto, isolado cujo trecho recebe o nome de “Higrômetros singulares”. É o próprio homem que mede a humidade do ar em seu corpo, em sua pele, dando-lhe ao ar, à paisagem, a vida:

Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneiro frouxo de tiros espaçados e soturno, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando num vale único. Pequenos arbustos, icozeiras virentes viçando em tufos intermeados de palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado uma árvore única, uma quixabeira alta, sombreando a vegetação franzina.(CUNHA, 1998, p. 37-38)

            Esse trecho vai nos envolvendo e anunciando uma surpresa. Notemos que os verbos que se referem a um sujeito humano estão no primeiro período, mas nele o objeto primeiro não aparece, a flora do lugar com aparência de um velho jardim e como se não bastasse, abandonado. Nada mais, nada menos que o similar de um cemitério sem cuidados, ou também abandonado. Entretanto a flora rasteira tem uma companheira, uma frondosa árvore verde impondo-se àquele lugar desprezado, configurando alguns contrastes e antíteses como seco X verdejante, e, o mais pertinente ao “clima” criado pelo suspense abandono X vigília   e  vida X morte.
            Após esse preâmbulo, poeticamente o narrador se depara com o bizarro:
            O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão e protegido por ela – braços largamente abertos, face volvida para os céus – um soldado descansava.(idem, p. 38)
            Este acontecimento provoca em Euclides – narrador e escritor – um “compadecimento” político, pois sem esquecer do modo como aquele “soldado” fora obrigado a participar da guerra, deixando a própria família à mercê da própria sorte, vê nosso analista que a solidão da morte livrara-o de ser enterrado em uma vala comum, misturando-se a muitos outros. “...o destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade de lúgubre de um fosso repugnante...” (ibidem.)
            Enfim descreve Euclides como o corpo daquele soldado tornara-se um medidor da umidade dos ares.

E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conversando com os traços fisionômicos, de modo a incluir a ilusão extra de um lutador cansado, recuperando-se em tranquilo sono, a sombra daquela árvore benfazeja. Nem um verme – o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria – lhe maculares os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho, revelando de modo absoluto mas sugestivo a secura extrema  dos ares ( idem, ibidem – grifo nosso).

            Mais uma vez sentimos as antíteses postas por Euclides cuja maior delas é vida x morte, é a morte superada pela vida, entretanto mesmo sem vida, a morte não apodreceu; mesmo sem respirar, parecia um lutador cansado; mesmo morto, à sombra, o verde da quixabeira devolvia-lhe a vida; intacto estava o soldado morto que murchara, mumificara-se transformando-se em higrômetro, estranho, inesperado e bizarro.
            E assim vai tecendo a sua costura, o seu bordado, a sua tela naqueles paragens o nosso ensaísta, na função do repórter de guerra, literalmente entre a vida e a morte de brasileiros que se enfrentaram em uma guerra fratricidas ocorrida no final do século XIX cujos relatos transformados em livro marcaram para sempre a literatura brasileira sem,  no entanto, ser o próprio autor, um homem de ação política. Apesar disso revela ao Brasil e ao mundo, outro Brasil, outro mundo possível, o de que aquele país do final do século XIX não era restrito ao litoral.
           


Concluindo...
Parafraseando o prof. Cícero Bezerra, em artigo sobre Um sopro de vida, de Clarice Lispector, quando ali vê o professor que diante da escrita a personagem é tomada por estado de “graça”  ou “dom” que irrompe e, como sendo um acontecimento, irrompe no íntimo da personagem exigindo um relação com o outro, surpreendentemente, instantaneamente. Do mesmo modo temos o acontecimento de Euclides, escritor, narrador e personagem ante a visão real do soldado morto, um acontecimento, não como graça ou dom, mas como força que emerge de dentro para fora, transformado em emoção de piedade- personagem; sensação de abandono – narrador; comprovação de desprezo pelas autoridades – escritor. É a escritura de um texto não mais hibrido, mas triplo envolvendo personagem, narrador e escritor. Eis Os Sertões, o livro vingador.










REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEZERRA, Cícero Cunha. Clarice Lispector: escrever para se livrar de si. O Eixo e a roda revista de filosofia, Belo Horizonte, v. 24, n. 2, p. 157-172, 2015.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões, campanha de Canudos. Edição crítica de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Ática, 1998.
ROJAS, Alonso Silva e SERRANO, Jorge Francisco Maldonado. Filosofía y Literatura em Deleuze y Guattari: creación y acontecimiento. Práxis Filosófica Nueva serie, Universidad Industrial de Santander, n. 45, p. 171-202, julio-diciembre 2017

domingo, 30 de dezembro de 2018

 Nas linhas sinuosas de Antonio Carlos Mangueira Viana

Há um ano me dei conta que conhecia o contista Antonio Carlos Viana, é sem o "Mangueira" que ele é mais conhecido, o qual me fora apresentado pelo ex-parceiro e ex-camarada Landisvalth Lima lá pelos idos dos anos 2000 em uma polêmica sobre as leituras indicadas para o vestibular da Universidade Federal de Sergipe, nossa querida UFS.
Nesta ocasião eu estava à frente de alguns jovens, hoje autoridades em nosso município, levando-os àquela Universidade para prestarem o vestibular, quando Landis me falou que o escritor sergipano havia sido preterido das leituras obrigatórias em face do caráter pornográfico a que os textos de Viana classificado - quem conseguiu retirar tinha força política e econômica junto à instituição.
Deixando esse detalhe de lado, voltemos ao momento em que, há um ano, em evento científico sobre o escritor e realizado na mesma UFS, coordenado pela professor Oscilene, me dei conta que conhecia o nobilíssimo artista da palavra. O conhecia dos corredores vespertinos da Universidade, pois pela manhã estava no estádio, na piscina ou em outro setor do Departamento de Educação Física, e às tardes buscava refúgio intelectual nos Departamentos de Letras,História, Pedagogia entre outros do CECH. 
Vieram as lembranças de ver aquele sujeito carrancudo, de andar solitário que neste ano de 2017 se revela, não tardiamente, um grande escritor que nos surpreende em seus contos, com títulos e conclusões que fogem do lugar comum que nossa "lógica" de leitor experiente nos conduz. Isto é, vamos nos acostumando a antever conclusões, a comparar títulos de contos ou romances com o desenrolar do texto, etc. Em Viana as situações, os elementos da narrativa não são dados de maneira comum. Esse é o desafio e o prazer de lê-lo.
Durante o evento fui me deliciando com as exposições e leituras diretas de textos de Viana, em particular aquelas que tratam do feminino, de mulheres protagonistas e usando o recurso da internet, fui logo adquirindo os livros dele, os quais estou agora lendo-os, mergulhando no universo aracajuano e nas fantasias/ficções desse mestre da Literatura brasileira e universal, uma vez que já ganhou prêmios nacionais e é traduzido em alguns idiomas, o que confere essa titulação por muitos e muitas já atribuída e por mim ratificada. No evento alguns títulos de contos ficaram na memória e ao lê-los senti a mesma emoção de quando os ouvi naquelas tardes de Dezembro de 2017.
Os títulos dos livros são detalhes importantes do seu trabalho como JEITO DE MATAR LAGARTAS, o primeiro que li; ABERTO ESTÁ O INFERNO, o segundo; O MEIO DO MUNDO E OUTROS CONTOS e CINE PRIVÊ, cuja ordem de leitura desses dois não sei qual será, pois estou fazendo um esforço para fazer uma leitura livre, solta das amarras acadêmicas (se isso é possível para quem já fora tragado pelas águas da Ciência, mas estou me esforçando, apesar de fazer a leitura do primeiro, pelos contos com títulos no feminino, na ordem do índice, mas não me perguntem o motivo, pois não sei responder).
Após a primeira leitura, Jeito de matar lagartas fui ao You Tube para ver algumas entrevistas de Viana e logo me deparei com uma feita por outro escritor, o pernambucano Marcelino Freire e de tantas coisas importantes e bonitas que Viana falou destaco a seguinte: o livro de contos para ser bom algum ou alguns deles tem que grudar na memória do leitor. Esse é o sinal de que o livro é bom. E eu aproveitei a dica do autor para destacar com vocês alguns deles, mas hoje somente um será escolhido, os demais serão incluídos em outras postagens que farei acrescentando nesse mesmo texto.
O escolhido está no segundo livro lido, Aberto está o inferno, Quando meu pai enlouqueceu. É uma narrativa do êxodo, mas de volta pra casa, de uma família que migrou e depois teve que retornar para a terra natal. Narra a reação de um filho que percebe o choque de um pai ao ter que retornar e sentindo-se derrotado pela situação, enlouquece. Eles retornam, mas nada será como antes. Esse pequeno trecho é o máximo que posso escrever na tentativa de capturar os meus leitores e minhas leitoras para a leitura do texto original, mas reproduzirei aqui um trecho do conto, que também não revelo a localização:


Chovia no dia em que meu pai enlouqueceu. Sempre chove em dia de desgraça. Foi assim quando meu irmão quebrou o braço, quando me mãe sofreu um aborto e no enterro de minha avó. A gente voltava do Rio, onde fomos morar e não deu certo. A morte de Getúlio acabara com meu pai.

Esse trecho transcrito teve a contribuição valiosa do meu grande Ariel Carvalho de Souza, por enquanto futuro jogador de futebol e jornalista, que ditou o texto para que o papai digitasse.

PS. Texto não revisado pelo autor.

sábado, 20 de outubro de 2018


Educação de tempo integral, pacto para o fortalecimento do ensino médio, reforma curricular para o ensino médio: temas ricos, pouco trabalhados. Mas há uma luz acesa!!!!


Há tempo, principalmente nos últimos 05(cinco) anos viemos acompanhando, de modo indireto, isto é, sem adentrar no debate, várias inferências sobre o ensino médio, dentre eles, o ENEM, a demanda – jovem trabalhador, não-trabalhador, das pequenas, medias e grandes cidades, da zonas centrais e periféricas, da zona urbana e da zona rural, da rede pública e da rede privada – o currículo – educação de tempo integral e o que estudar e como estudar.
É a partir deste ultimo aspecto – o que e como estudar no ensino médio, o currículo - que declinaremos neste momento, que deveria ter saído em janeiro, conforme tarefa auto-imposta, a saber, um texto sobre educação a cada 30(trinta) dias, ao menos, durante o ano de 2015, tendo seu início sequencial em dezembro de 2014.
Estando no Ensino Médio desde o ano de 1997 e exclusivamente nele desde 2001, sempre nos inquietamos com o comportamento dos estudantes, jovens, na sua quase totalidade, na faixa etária dos 15 aos 17 anos, portanto, uma fase da vida de início de consolidação dos mais variados conceitos, morais, sócias, intelectuais, políticos, desse modo, gente que pensa e tem opinião, por mais que nós professores e professoras, entendamos que são SOMENTE adolescentes e jovens. Foi a partir desse itinerário de confrontação – mundo adulto, diplomado e mundo juvenil sempre ansioso por mudanças – que viemos construindo um novo olhar sobre o que e como ensinar no ensino médio: a proposta de um currículo por temas, isto é, no lugar das disciplinas, teríamos cursos variados, tendo por base o conteúdo daquelas matérias de ensino e os conhecimentos obrigatórios para este nível de ensino, traduzidos na legislação por competências e habilidades.
I - Para ilustrar essa ideia passo a expor uma leitura que fiz do livro Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, publicado em 1995, pela editora Globo, São Paulo. O exemplar que li está na 45ª edição. O livro trata, sinteticamente falando, da “aventura” de 07(sete) cadáveres que decidem protestar contra o atraso nos próprios sepultamentos. Esse atraso dá-se por conta da luta dos trabalhadores da cidade de Antares, cidade onde ocorrem as ações da narrativa. Escolhi o capítulo LXXVI para trazer à tona algumas possibilidades do que denominei de estudo por temas, no lugar das convencionais disciplinas. Após essa exposição, delinearei outra atividade, esta já aplicada na escola onde trabalhamos, bem como minha sugestão de alteração curricular, esta ideia foi indicada no plano de ação, que pode ser total ou parcial no ano letivo.

Por ora vamos ao trecho do livro aludido acima:
O diálogo “invocado” por dona Valentina(esposa do juiz Dr. Quintiliano do Vale) apresenta os sinais de liberdade feminina, quando: ela acende um cigarro na presença do marido, que sabe do vício, mas não permite ação na presença dele; o ato de “modificar”  o acontecimento – a ressureição dos sete antarenses – em um conto de fadas (sobre essa iniciativa de dona Valentina o narrador não nos diz nada sobre como ela fez a mudança de um fato real – na narrativa, mas surreal para os leitores) e, por fim, quando surpreende o marido dizendo que ela não é uma dama, conforme a justiça entende, ao tempo em que convida-o para se despirem das máscaras usadas cotidianamente e assim falarem a verdade, um para o outro, como dois seres humanos normais.

Destaco ainda o conceito que ela dá para Justiça, a área de trabalho do marido, chamando de janela que abre e fecha de acordo com as conveniências do transcurso de um assunto ou episódio real. Isto é, se ele, o juiz, concorda, a janela do diálogo é aberta, se ele discorda, a janela é fechada.
O idioma francês como símbolo de intelectualidade e de modernidade ou ainda de elitismo, mesmo já perdendo espaço para o idioma inglês, é outro elemento informativo que o romance revela, significando, sociológica e politicamente, o poder político-ideológico que eles, os idiomas estrangeiros e de potências econômicas e militares, exercem em um país “sem comando”, ou até mesmo subserviente a essas nações.

O trecho a seguir traz uma visão panorâmica da obra, sem deixar de sugerir um posicionamento do autor desse texto:

O romance é um manifesto à liberdade, uma denúncia sobre os modos de ocupação de terras devolutas – e do modo como nasceram muitos latifundiários no Brasil – e à formação de muitas famílias tradicionais que ocuparam e ainda ocupam o poder econômico e politico em terras brasilianas, ao tempo em exibe também o cotidiano desses núcleos sociais.

O livro é volumoso, mas nem por isso, cansativo. Apresenta diálogos e narrativas irônicas, bem ao gosto do jovem e do adolescente, carregados de humor e de muita informação. É uma obra literária completa: DIVERTE, ENREDA, INFORMA. É um texto necessário ao estudante do ensino médio, aos curiosos, às curiosas, a quem se dedica a conhecer a sociedade brasileira, mesmo tendo sido o Rio Grande  do Sul, usado como palco por um dos mestres dos pampas gaúchos, o grande Érico Veríssimo.

O curso no ensino médio, tendo por base o livro INCIDENTE EM ANTARES, como pude relatar nesse pequeno texto, traz elementos da arte literária, história, política, geografia, religião, biologia, química, tendo a língua portuguesa como idioma em que foi escrito, entre outras disciplinas que os profissionais da educação possam enxergar. De posse do livro, a leitura cotidiana e extra-classe  será o objeto principal de estudo e o total de horas destinado ao curso, deve ser definido ainda na preparação do ano letivo e, em conjunto com outros temas de cursos, o horário da turma/classe será preenchido observando-se as determinações, critérios, princípios, carga horária e outros que a legislação estabelece.

II - Outros temas para cursos já foram expostos onde trabalho como, por exemplo, O FUNCIONAMENTO DA CASA DE FARINHA, O BIOMA CAATINGA, AS FESTAS POPULARES, entre outros, cujo desenvolvimento contempla os conhecimentos estabelecidos por lei.
Como afirmei anteriormente nesse texto, uma proposta de ensino por temas foi sugerida em nossa preparação do ano letivo o qual passo a delinear a seguir em duas possibilidades:
A primeira é a de inclusão paulatinamente e consecutiva, isto é, neste ano de 2015 os novos estudantes teriam à sua disposição os cursos temáticos para sua livre matrícula. Porém, em caso de excesso de solicitações para determinado curso, o professor/a professora responsável fará uma seleção e, assim, teria o seu quantitativo máximo de estudantes matriculados. Em 2016 e 2017, teremos, assim as turmas de 1ª e de 2ª série em novo formato. Observando o detalhe que os jovens não estariam vinculados à sua classe de origem, pois eles estarão livres para matricularem-se em cursos diferentes, assim um rapaz de 17 anos, em 2017, poderá fazer um curso, por exemplo, Na Trilha d’Os sertões, com um alguém que esteja recém-saindo do Ensino Fundamental, com 15 anos de idade.
Para formar a quantidade de horas letivas, os estudantes serão matriculados em outros cujas vagas existem a fim de garantir a carga-horária mínima tanto do ano letivo, quanto do nível de ensino.
Entendo que desse modo o estudante terá mais prazer em estudar, pois  não teria o desconforto de ler um romance, calcular o valor de seno, tangente, as guerras púnicas, etc, etc, etc, isto é, temas inerentes às disciplinas que compõem o quadro curricular do ensino médio.

A segunda possibilidade é a da oferta concomitante, isto é, os estudantes fariam a sua opção no 1º ano de ingresso no ensino médio: ingressar nos cursos temáticos ou na 1ª série por disciplinas. Não uso propositalmente para esta segunda opção o termo “regular” por entender que sendo aceito o ensino do currículo por temas, este também passa a ser regular. Um detalhe importante: não pode haver mudança de matrícula em meio ao percurso, uma vez matriculado em uma das opções, deverá o estudante ir até o final dela, pois a diferença de nomenclatura e a quantidade entre si, será muito grande.
Por fim descrevo em linhas gerais o que denominei de CINEMA NA ESCOLA. Trata-se de uma semana de aula que consiste em exibir o mesmo filme em todas as salas de aula, ao mesmo tempo. São 05(cinco) filmes para a semana, denominada de SEMANA TEMÁTICA, um filme para cada dia. As primeiras sequências foram escolhidas pelos professores, ainda no ano de 2009, as demais foram indicadas pelos estudantes, sempre abordando o mesmo tema e tendo o cinema nacional como lugar de destaque, isto é, a maioria deles é de filmes brasileiros.
Como um dia de aula qualquer, o sinal é acionado e todos os estudantes se dirigem para as suas salas. Há um pequeno intervalo durante a exibição e ao final dele, a merenda é fornecida. Após a degustação, todos e todas voltam para a classe e o debate sobre o filme é iniciado. A critério do professor/da professora, alguma atividade é solicitada após o debate ou até mesmo, alguma pergunta, sobre qualquer um dos filmes é solicitada em prova escrita, independentemente da disciplina.
Após esse itinerário espero ter contribuído para a reflexão e o debate deste nível de ensino há tempos carente de profundas mudanças, em particular, no atendimento aos seus principais atores, os estudantes, no que diz respeito ao ouvir o que eles e elas querem vivenciar, ouvir, falar, conflitar, produzir, socializar, aprender...
Em dia de chuva com muito calor abafado, nuvens carregadas e a perspectiva de muita chuva para o sertão mocoense (ou seria montealvernense?)
 Fátima, 24 de fevereiro de 2015.
 

Esta é a capa do exemplar utilizado pelo autor do texto.


 
Nesta foto vê-se a edição do livro utilizado, bem como sua edição e editora e, principalmente, sua autoria.


Nesta foto temos o capítulo onde é iniciada a “saga” da revolta dos mortos antarenses.

Esta foto mostra a continuação do capítulo indicado na página anterior.
Esse trabalho fora anteriormente publicado no blogdolandis, de responsabilidade do professor Landisvalth Lima,da cidade de Heliópolis - Bahia.


Mais uma vez retorno com minhas postagens, tanto para dar vida a esse veículo, quanto para socializar minhas produções nesse tempo de produção em série que a Universidade Brasileira vem se comportando (vale e sabe quem produz e publica em revista acadêmica e tem seu currículo lattes acumulado de produções , isto mesmo,é acumulação). Como sou avesso a esse tipo de comportamento, resolvi alimentar meu blog, que é nosso, com minhas produções, mesmo tendo a intenção de retornar à academia e fazer meu Doutoramento.
Abaixo dois pequenos trabalhos que fiz durante esta minha segunda graduação, em Letras Vernáculas,  pela Universidade Federal de Sergipe, na modalidade à distância. uma dívida pessoal recentemente paga (fui diplomado no mês de junho deste ano). Isso mesmo, apesar de já ter consolidado minha carreira profissional como professor de Língua Portuguesa, eu não era diplomado.

Em outro momento postarei outros textos frutos dos trabalhos


Conceito de Literatura. Literatura de viagem. Brasil colônia

O ser humano sempre desenvolveu o fascínio pelo desconhecido e a literatura foi um dos meios pelos quais essa curiosidade ganhou corpo, forma, cor, cheiro, vida. Estou me referindo ao que se convencionou denominar por Literatura de viagem, esses escritos que desde a Antiguidade Clássica vêm divertindo, surpreendendo, emocionando, informando a todos e todas que mantém contanto com 
esse “tipo” de produção escrita.
Dialogando com Cesar Palma Santos em tese sobre esse “gênero”, em um pequeno trecho do seu trabalho constatamos que a Literatura de viagem é um campo recente de estudos, mas sua produção é vasta ,mas podem ser consideradas como suas algumas das seguintes características: são narrativas reais sobre o encontro com o “outro”, cujo ambiente e cultura são diferentes daqueles de quem narra, narradas em primeira pessoa, entre outras.
No Brasil, temos alguns exemplos de narrativas de viagem, elencadas como, dentre outras denominações, Literatura de viagem, A Carta de Achamento do Brasil, a primeira do gênero, que relata e descreve os primeiros instantes do encontro entre os futuros, colonizador e colonizado, escrita por Pero Vaz de Caminha.


 Em “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, temos a personagem  Macabeia.Vejam como descrevo e analiso essa enigmática figura da literatura nacional.

A personagem Macabea é apresentada como uma pessoa frágil, desprovida de desejos e de anseios. Entretanto o desenrolar dos fatos vão despertando e revelando anseios, curiosidades e o novo se descortinam diante de seus olhos. É uma mulher contida, mas em contínuo desabrochar (sem perder o que chamamos de ingenuidade, como são reveladas atitudes tomadas a partir de “sugestões de outros personagens próximos”). São essas características vistas em Macabea as quais se traduzem em “comportamentos reais”, seja no trabalho, e suas atitudes de subserviência, seja na vida familiar, que ganha existência na pensão onde mora e, principalmente, na relacionamento amoroso e muito conturbado com Olímpico. Macabea é órfã e sente-se sozinha, incapaz, mas admira as pessoas livres. E é essa admiração que a impulsiona, põe-na adiante, mesmo com o fim trágico ao qual fora destinado.